PF leva drible de empresa e ganha sede-fantasma na fronteira
Um esqueleto de paredes sem reboco chama a atenção de quem
passa ao lado da acanhada sede da Polícia Federal em
Cáceres (MT), município na fronteira com a Bolívia
considerado uma das principais portas de entrada de drogas,
contrabando e armas ilegais no país.
A estrutura é o símbolo de um drible que a PF levou de uma
A estrutura é o símbolo de um drible que a PF levou de uma
empreiteira do Estado, e hoje serve somente como garagem
improvisada para carros quebrados da polícia.
Iniciada em 2009, a obra se destinava a abrigar uma nova
delegacia --com dois pavimentos, amplos e modernos gabinetes,
auditório, estande de tiro e até heliporto.
Passados quatro anos, porém, o mato tomou conta do terreno,
e a placa oficial, anunciando um investimento de R$ 5,5
milhões do Ministério da Justiça, desabou.
A empreiteira contratada, Salomão Construtora e
A empreiteira contratada, Salomão Construtora e
Terraplenagem Ltda., abandonou o canteiro em março de
2010, deixando dívidas com dezenas de operários e
fornecedores locais e uma série de dúvidas sobre a licitação
conduzida pela Polícia Federal.
À ocasião, segundo dados do Portal da Transparência do
governo federal, a empresa já havia recebido um total de R$
1.029.712,65, dentro do programa chamado "Modernização
da Polícia Federal".
"A empresa tinha sido contratada pela PF. Como é que eu iria
desconfiar? Forneci toda a madeira e quase fui à falência",
disse Francisco do Prado Junior, dono de uma madeireira que
afirma ter levado calote de R$ 150 mil.
O advogado que representa 23 operários da obra em ações na
Justiça do Trabalho chegou a obter a penhora de uma fazenda
que, segundo o contrato social da construtora, representava
88% de seu capital social.
A propriedade nunca foi localizada. "Foram feitas diligências
por oficiais de Justiça, mas a fazenda existe só no papel. Não há
registro em lugar algum", diz o advogado Eduardo Sortica de
Lima.
Com o valor declarado de R$ 3 milhões, a propriedade passou
a constar do patrimônio da Salomão cinco meses antes da
abertura da concorrência pela PF. "Sem essa mudança, a
construtora não teria nem se habilitado a disputar uma obra
daquele tamanho", afirma o advogado.
A PF rescindiu unilateralmente o contrato. Em dezembro
passado, uma nova empresa foi contratada para retomar a
obra, mas a partir de um projeto mais modesto.
Por falhas na execução, a parte já concluída não suporta um
segundo pavimento.
"Não haverá mais estande de tiro ou heliponto ", diz o
delegado Leonardo Machado, chefe da delegacia local da PF.
Ainda assim, segundo ele, a mudança vai favorecer a atuação
da equipe, hoje sediada de modo improvisado em uma casa
doada pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
No ano passado, a delegacia, responsável por 800 km de
fronteiras, apreendeu mais de 1.200 quilos de pasta-base boliviana.
A PF em Mato Grosso informou que as obras foram retomadas
em março e devem ser concluídas em outubro.
Disse ainda ter aplicado multa de R$ 500 mil à construtora
Salomão por descumprimento de contrato.
OUTRO LADO
O empresário Wagner Salomão, diretor-geral da Salomão
Construtora e Terraplenagem Ltda., disse que sua empresa é
que foi lesada durante a execução da obra para a Polícia
Federal. Segundo ele, o abandono do canteiro foi o "último
recurso".
"Se alguém levou baile nessa história, fomos nós. Recebemos
um projeto cheio de erros e tentamos cumprir. Mais tarde,
usaram esses mesmos erros para bloquear nossos pagamentos. ]
Ficamos quatro meses sem receber", disse.
Segundo ele, a empresa está na Justiça para tentar obter cerca
de um R$ 1 milhão da PF. "Projeto, planilhas, formas de
execução, tudo foi feito pela PF. Nós pegamos o projeto e o
executamos a risca, sob os olhos de 11 fiscais todo o dia. E
agora não querem pagar?"
A área agrícola que passou a constar do capital da empresa,
segundo ele, existe e está registrada no cartório de
Paranatinga (MT). "É uma posse, mas está registrada." Ele
admite, porém, que a propriedade fica dentro de uma área
possivelmente indígena.
Mesmo sem o aporte de capital, afirmou, a empresa
conseguiria se habilitar à concorrência. "Você acha que a
gente iria tentar um golpe justamente em cima da Polícia
Federal?"
A superintendência da PF em Cuiabá negou que tenha havido
atraso nos pagamentos à construtora. Das 6 medições
realizadas, segundo a assessoria de imprensa do órgão, 4
foram pagas regularmente antes do abandono do canteiro.
"Na quinta medição foi emitida uma nota fiscal em 19 de
fevereiro de 2010 e não foi quitada porque a contratada
abandonou a obra (...) acumulando um atraso de 48,96% [no
cronograma]", disse a superintendência.
Nenhum comentário:
Postar um comentário